TUNEL DO TEMPO

  • SÃO PAULO Anos 50 e Início dos 60  Quando a cidade era mais gentil 
  • (Parte I )

Dizem que no final dos anos 50 e início dos 60, quando estava recém-construído, o edifício Bretagne era ponto de peregrinação turística. Os ônibus encostavam na avenida Higienópolis para que a turistada pudesse ver de perto aquele verdadeiro monumento, de finíssimo e arrojado mau gosto.

Esta foto parece confirmar a lenda. Ela apareceu num lote de slides velhos à venda em Columbus, Ohio, e deve ter sido feita por algum americano em viagem por aqui. A moldura do slide tem a data de revelação: janeiro de 1960. Pelo enquadramento ruim e pela má qualidade geral, a foto só pode ser de turista mesmo.

Mas apesar da qualidade, ela permite ver algumas características originais do prédio de Artacho Jurado que hoje não existem mais.

O que mais chama a atenção é a maior integração que havia entre o condomínio e o espaço público, mais tarde quebrada pela instalação de grades de segurança. Mas há outros detalhes. Um deles é a entrada para carros que parece estar funcionando à direita, hoje anulada. Outro é o guarda-corpo do terraço sobre o salão de festas, bem mais interessante que o atual. E ainda há as luminárias vermelhas e brancas dos postes, substituídas por uns globos brancos bem menos artachianos.

Tem gente que pensa que a avenida Paulista termina na rua da Consolação. Mas não é assim: na verdade ela atravessa a Consolação e termina duas quadras à frente, numa pracinha na altura da rua Minas Gerais.

Noventa anos atrás, quando estas fotos foram tiradas, a tal praça já tinha mais ou menos o mesmo aspecto que tem hoje. A mureta em semicírculo, que se vê na primeira das fotos abaixo, continua exatamente igual.

A diferença é que naquela época existia ali um enorme e desengonçado monumento em homenagem a Olavo Bilac. Instalado em 1922, o monumento era formado por diversas esculturas em bronze inspiradas na obra do poeta, distribuídas em uma estrutura de alvenaria. Vistas isoladamente, até que não eram tão feias. Mas o conjunto ficou horroroso.

Tão horroroso que a prefeitura, com toda a razão, resolveu tirá-lo de lá em 1936.

Uma vez desfeito o monumento, sobraram as estátuas, que, desgarradas, continuam perambulando até hoje pela cidade. O busto do poeta que ficava no centro do conjunto, por exemplo, atualmente está num modesto pedestal na avenida Sargento Mário Kozel, próximo ao parque do Ibirapuera. Outro fragmento, “O Caçador de Esmeraldas”, foi parar numa escola estadual em Pinheiros. Outro ainda, conhecido como “Idílio” ou “Beijo Eterno”, está no Largo de São Francisco, em frente à faculdade de Direito, e assim por diante.

Estas duas fotos faziam parte de um álbum particular que também foi desmembrado e acabou sendo vendido aos pedaços pela internet. A primeira mostra o monumento visto da avenida, e a segunda, a avenida vista do monumento. Como o álbum se desfez, não dá mais pra saber de quem são as fotos. Só sei que era alguém que falava alemão, por causa da data anotada na folha em que estavam coladas: “März 1926”.

Em 1982 a praça acabou sendo palco de outra homenagem infeliz, ao ser oficialmente batizada de “Praça Marechal Cordeiro de Farias” em reconhecimento a um militar que participou do golpe de 1964. Isto me faz pensar que, feio por feio, teria sido melhor manter o monumento ao poeta parnasiano.

Na seleção de fotos de Joe J. Heydecker publicada ontem, estas duas tinham ficado de fora. Mas eu as acho tão simpáticas que resolvi fazer um novo post só para elas.

Ao contrário das de ontem, que mostram gente anônima nas ruas, estas são fotos de família. É a esposa do fotógrafo, Charlotte, quem aparece se despedindo da filha, Tita Heydecker, na porta da perua escolar. Pelo menos é o que explicam as fichas de ambas as fotos, no organizado acervo da Biblioteca Nacional da Áustria. As imagens são de 1961. A perua parece meio velha, mesmo para a época.

O que os austríacos provavelmente não sabem, porque não incluíram na descrição, é o endereço

exato da cena. Mas estamos na rua Rocha 318, na Bela Vista, e o prédio ao fundo continua igualzinho até hoje.

Foi por intermédio de um leitor assíduo do blog, o Andre Borges Lopes, que eu conheci esta semana o trabalho de Joe J. Heydecker, um fotógrafo de quem eu nunca tinha ouvido falar. Fiquei um tempão olhando as fotos, fascinado.

Pesquisando na internet, fiquei sabendo que Heydecker nasceu em 1916 em Nuremberg, na Alemanha, viveu em diferentes países e produziu uma vasta e variada obra como jornalista, fotógrafo e escritor. A fase mais importante parece ter sido nos anos 40, na Polônia, onde ele fotografou clandestinamente os crimes de guerra nazistas no gueto de Varsóvia.

Mas as fotos que mais me chamaram a atenção foram as produzidas entre 1960 e 1985, período em que o alemão viveu em São Paulo e registrou o cotidiano da cidade.

As fotos de São Paulo são tantas, e tão interessantes, que foi difícil fazer uma seleção. Acabei trazendo estas, do início dos anos 60, porque mostram a paisagem humana da cidade: falam da vida em São Paulo por meio das pessoas nas ruas. Minhas favoritas são das da feira que funcionava na praça Roosevelt, e as do jardim do Museu do Ipiranga.

Heydecker morreu em 1997 em Viena, e suas fotos ficaram lá. O acervo de 25 mil negativos pertence hoje à Biblioteca Nacional da Áustria. As imagens, digitalizadas, estão disponíveis para pesquisa aqui: http://www.europeana.eu.

 

A porta anunciava: “sapataria rápida”. Mas a prefeitura foi mais rápida ainda.

Os moradores e comerciantes do sobrado na esquina da rua Araújo com a Consolação tinham sido intimados a deixar o imóvel, que ia ser demolido para as obras de alargamento desta última.

Eles resistiram a sair, e a resposta foi violenta: a demolição começou com a casa ocupada mesmo. Aos poucos, sem alternativa, as pessoas foram saindo e retirando suas mercadorias enquanto as paredes eram derrubadas com picaretas. Polícia e imprensa assistiram de fora. A foto que reproduzo aqui é da Folha de S. Paulo.

A cena aconteceu em 6 de janeiro de 1965 e saiu nos jornais do dia seguinte. O país vivia uma ditadura – as coisas na época eram resolvidas desse jeito.

Essa foi a penúltima vez, até onde eu sei, que o poder público em São Paulo derrubou uma casa com gente dentro.

A última foi ontem, quando a prefeitura acelerou ainda mais: ao invés das singelas picaretas, desta vez meteu logo uma escavadeira.

A foto não tem data, mas pelas roupas das pessoas eu chutaria que é dos anos 50.

Quando dei de cara com ela, achei a cena interessantíssima. O que estaria acontecendo no Anhangabaú para reunir tanta gente assim na rua, numa época em que as ruas estavam sendo cada vez mais rapidamente entregues aos automóveis?

O tradutor do Google funcionou como um balde de água fria. É que “Unabhängigkeitstag”, em alemão, significa “dia da Independência”. Na minha ingenuidade, eu esperava algo menos quadrado e patrioteiro que um desfile de 7 de setembro.

Pelo carimbo do verso, a foto é da Bayerische Bild GmBH, que parece ser o nome de uma agência jornalística com sede em Munique

 

As fotos são de um álbum de família que foi desmembrado e posto à venda no Rio de Janeiro, então é provável que os personagens que aparecem nelas sejam cariocas endinheirados, em passeio por São Paulo. O ano da viagem está anotado a lápis no verso: 1921.

Fotos de turista quase sempre são ruins, e estas não fogem à regra: a qualidade das imagens é inversamente proporcional à estica desses cariocas. Mesmo assim, dá pra ter uma boa ideia de como era passear no Anhangabaú. Destaque para o contraste entre o aspecto aprazível do vale e o tráfego intenso de automóveis e bondes sobre o viaduto do Chá.

Das construções que aparecem nas três fotos, nenhuma sobreviveu muito tempo. O próprio viaduto ainda está em sua primeira versão, metálica e fininha, que só durará mais 17 anos. O teatro São José, à direita dele, e o hotel Sportsman, à esquerda, também virão abaixo em pouco tempo para dar lugar aos edifícios Alexandre Mackenzie (atual Shopping Light) e Matarazzo (atual prefeitura).

 

São Paulo nos anos 40 e 50 era uma cidade bem mais humana, organizada e acolhedora do que hoje, certo? Tudo funcionava melhor, a cidade era gentil e as pessoas viviam mais felizes.

Essa é a imagem ingênua que muita gente tem, construída com altas doses de romantização e saudosismo, e o próprio nome deste blog brinca um pouco com ela. Mas não é preciso ir longe para desmontá-la. A São Paulo do passado nunca foi assim, e ninguém melhor para nos mostrar isso do que quem sofreu nela.

Como por exemplo o Paco, imigrante espanhol que estava por aqui em 1950. No relato que ele manda ao irmão, fica claro que a cidade em que ele vive é esta mesma que a gente conhece hoje:

“Sao Paulo 31 julio 1950
Querido hermano Miguel: En sustitución de una carta que te debo y que mañana a lo más tardar te mandaré, remito esta vista de lo que se llama “la ciudade”, el cogollito de Sao Paulo. Apreciarás una semejanza con el centro de las populosas aglomeraciones norteamericanas. La mayoría de sus edificios están destinados a fines comerciales y en cambio las viviendas se desparraman en todas direcciones sin que importe la distancia, en casas de una sola planta, en su mayoría.
El exagerado perímetro de la ciudad ocasiona la esclavitud de sus habitantes. Los hace pigmeos. Hoy mismo estamos trabajando en un barrio distante de nuestra morada 10 o 15 Kms. No te extrañe pues que tengamos que salir de casa con hora y media de anticipación para estar en el trabajo a las 7.
Así que después de la jornada y el regreso ceno y no tengo ganas ni humor para escribir ni siquiera unas letras. Se agota uno demasiado y menos mal que no me falta salud y apetito.
Aquel sosiego de Valencia vale muchísimo. Hazte cargo de que ahora son las 5 de la mañana. Anoche me fui a la cama a las 9. Cambio absoluto en mi modo de vivir, ¿no es cierto? Esta fabulosa dispersión, la mezcolanza de razas, los sucesos e incidentes sangrientos diarios que aunque propios de una capital heterogénea por sus habitantes, son exacerbados por el poco control que la policía ejerce, ocasiona que la ciudad en sí adolezca de tristeza y sea a partir de las 8 de la noche una cosa sin vida.
Bueno Miguel, ve coleccionando “fotos” de esta moderna Babilonia y hasta mañana pues. Recibe el cariño de tu hermano Paco. Besos a la abuela.”

(São Paulo, 31 de julho de 1950
Querido irmão Miguel: Em substituição a uma carta que te devo e que amanhã ao mais tardar mandarei, remeto esta vista do que se chama “a ciudade” (sic), o coração de São Paulo. Você apreciará uma semelhança com o centro das populosas aglomerações norte-americanas. A maioria dos seus edifícios está destinada a fins comerciais, enquanto as moradias se esparramam em todas as direções, não importa a distância, em casas de um só andar na sua maioria.
O exagerado perímetro da cidade ocasiona a escravidão de seus habitantes. Os faz pigmeus. Hoje mesmo estamos trabalhando em um bairro distante de nossa morada uns 10 ou 15 quilômetros. Não estranhe, pois, que tenhamos que sair de casa com uma hora e meia de antecedência para estar no trabalho às 7.
Assim, depois da jornada e do regresso, não tenho vontade nem humor para escrever sequer umas letras. A gente se cansa demais, e menos mal que não me falta saúde nem apetite.
Aquele sossego de Valência vale muitíssimo. Saiba que agora são 5 da manhã, e ontem à noite fui dormir às 9. Mudança absoluta no meu modo de viver, não é? Essa fabulosa dispersão, a miscelânea de raças, os acontecimentos e incidentes sangrentos diários que, embora próprios de uma capital heterogênea por seus habitantes, são exacerbados pelo pouco controle que a polícia exerce, fazem com que a cidade em si adoeça de tristeza e seja, a partir das 8 da noite, uma coisa sem vida.
Bom, Miguel, vá colecionando “fotos” desta moderna Babilônia, e até amanhã. Receba o carinho de seu irmão Paco. Beijos à vovó.”

Paco tinha avó, portanto devia ser bastante jovem em 1950. Quem sabe, então, ele ainda esteja por aqui. Seria ótimo se ele pudesse nos contar se, para ele, a cidade piorou tanto como a gente pensa. Ao contrário, deve ter melhorado.

São Paulo gosta tanto de demolir seus prédios antigos, que ao ver fotos como esta a gente vai logo supondo que eles não existem mais. Mas nem sempre isso é verdade.

Este cartão postal, por exemplo, é da primeira metade do século passado. A legenda hoje soa estranha: trata-se da Escola Allemã (Deutsche Schulle), na rua Olinda.

De lá pra cá, quase tudo mudou ali. A Escola Allemã não existe mais com esse nome (virou Colégio Visconde de Porto Seguro), e não funciona mais nessa rua. A própria rua também não é a mesma: foi desfigurada em 1970 pela construção do complexo minhocão-Roosevelt e nunca mais se recuperou. Nem mesmo o nome ela manteve, rebatizada de João Guimarães Rosa.

Em meio a tanta mudança, só ficaram mesmo os dois prédios para contar a história. Eles são a única coisa do cartão que ainda pode ser reconhecida, como se vê na foto atual, do Google.

A  alameda Fernão Cardim é uma ruazinha de apenas dois quarteirões, que corre paralela à avenida Paulista, começando na Brigadeiro Luís Antonio e terminando na alameda Campinas. Hoje ela é basicamente um corredor de guaritas e grades de segurança, que não se presta muito a festividades. Mas há 50 anos, era cenário dos carnavais de Mariana Pabst Martins.

Mariana é a mais alta das meninas que aparecem no portão, posando com suas fantasias no carnaval de 1967. Um pouco mais à esquerda, protegido pelo toldo que servia de garagem, aparece o DKW Fissore do pai de Mariana, o artista plástico Aldemir Martins.

A casa, segundo nos conta Mariana, foi demolida nos anos 70 junto com a vizinha da esquerda, no auge da febre imobiliária que alterou  a paisagem dos Jardins, substituindo as casinhas, mansões e cortiços que formavam um bairro misto e variado, pelo mar de prédios homogêneos que conhecemos hoje.

No lugar das duas casas, hoje existe o edifício alto e gradeado que se vê na foto abaixo, do Google. Seu “estilo neoclássico” relembra um passado que São Paulo nunca teve. E seu nome, “Mansão Fragonard”, homenageia o francês Jean-Honoré Fragonard, artista plástico do século 18 que, ao contrário do pai de Mariana, nunca teve nada a ver com o lugar.

Arquitetura neoclássica de carro alegórico e homenagem barroca de samba enredo…
Pensando bem, de alguma maneira o local conseguiu conservar, sim, a atmosfera festiva do carnaval.